Acorda! Arrebenta sempre do lado mais fraco

No âmbito da Saúde Suplementar – planos e convênios de saúde – nos deparamos, obviamente, com vários fenômenos característicos de nosso sistema econômico, a saber, sinteticamente, a exploração da mão de obra de alguns para enriquecimento de poucos. Esta calejada relação característica do capitalismo reflete em nossa categoria, principalmente na área clínica, nos deixando dessensibilizados frente às configurações da relação Psicólogos x Planos de Saúde.

Uma de suas estratégias para nos aterem em seus grilhões é manter o poder em suas mãos, e para isto, nos separam. Estipulam e firmam contratos de prestações de serviços sem o vínculo trabalhista tradicional agindo por entre as brechas das lei. A ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), uma agência governamental que tem como função regular os planos de saúde do Brasil, curiosamente têm ações que beneficiam mais as operadoras de planos de saúde do que a imensa maioria de seus usuários ou dos profissionais que lhes prestam serviços.

Amparados pelas normas/brechas da ANS, a grande maioria dos planos de saúde criam e firmam contratos desvantajosos não só para a nossa categoria mas para os profissionais da saúde em geral. Contratos que propõem direitos e deveres para ambos, mas que na prática se fazem cumprir cem por cento apenas para o contratante; isto quando há no contrato todos os direitos básicos do contratado.

Portanto, é comum encontrarmos queixas dos profissionais da categoria, na grande maioria dos convênios, no que diz respeito às seguintes questões:

Valores pagos muito baixos;

Descumprimento do reajuste anual dos valores dos serviços prestados;

Pagamentos em atraso;

Más condições de trabalho, por exemplo: no que diz respeito ao tempo de duração dos atendimentos ou ao pagamento das faltas e dos abandonos de tratamento. Entre outras questões.

Por conta desta relação estar configurada com o poder nas mãos do contratante (detentor de grande parte da fatia demandante do mercado), o contratado ainda se vê necessitado a submeter-se a este jogo mercadológico desleal. Principalmente aqueles que ainda estão ingressando no mercado de trabalho, jovens recém-formados por exemplo. Diante destas situações, acabamos encontrando o profissional se esperneando, tentando encontrar uma forma de lidar com tais condições, o que pode acabar levando-o a cometer algumas infrações contratuais e até éticas.

Através deste artifício político mercadológico do sistema para mantermos e acreditarmos que somos nós quem precisamos deles, esquecemos de perceber que, na verdade, são eles quem precisam de nós para se sustentar. Nossa dessensibilização não nos faz perceber o poder de ação que temos.

Porque deixamos calejar? Porque continuamos corroborando com estas condições? Precisamos acordar desta dessensibilização, separados somos fracos. Acorda! Arrebenta sempre do lado mais fraco.

Fabrício Siqueira Basso

Psicólogo Clínico, membro do GT de Saúde Suplementar do SINPSI-MS