Clínica ampliada: um olhar crítico na Saúde

A clínica psicológica no Brasil tem influência forte do modelo psicanalítico individualizado e a relação da psicologia com esse individualismo é marcada por ambiguidade: se, por um lado, o individualismo é condição sine qua non para o surgimento da psicologia como ciência, por outro ele tomará forma tal que denunciará a necessidade de que a psicologia repense os efeitos oriundos dessa relação. Assim sendo, a psicologia vem, há algumas décadas, reformulando o conceito de clínica e pensando uma clínica ampliada que seja mais engajada nas questões sociais da vida em sociedade.

Quando se fala em clínica ampliada está se falando em saúde pública e, pensando a saúde sob os paradigmas da saúde pública, é preciso ultrapassar a noção de indivíduo e compreender o homem em seu contexto sócio-histórico. Por muito tempo a psicologia conseguiu ver as dinâmicas psicológicas como se estas não tivessem nada a ver com as vicissitudes sociais e acabou, com isso, agindo a favor da manutenção de uma ordem social que ignorava completamente a autonomia dos sujeitos. Com o fortalecimento dos movimentos sociais e a reação popular à falta de políticas públicas de saúde capazes de fornecer a atenção em saúde necessária, a psicologia começa a firmar seu compromisso social, abandonando a visão abstrata do fenômeno psicológico e estabelecendo uma ruptura com a tradição classificatória e estigmatizadora até então presente, superando a noção de neutralidade que regia todas as ciências.

Foucault fala da clínica como um dispositivo: uma rede de instituições que envolve discursos e sentidos. Na modernidade, a clínica tenta ser uma experiência diferenciada de cuidado dos doentes. Porém, para ele, ela já nasce velha, pois é pensada e formada de modo a ajudar a formação média e não o doente. Somente quando se podia identificar claramente os sintomas do paciente é que este poderia estar na clínica. Assim, o sucesso do “tratamento” era garantido e a reputação do especialista continuava intacta. É somente no século XIX que se começa a desvincular a clínica dos hospitais e o saber clínico começa a ser constituído a partir da confrontação entre o alterado e o normal. Desde o século XVII a clínica psiquiátrica começa a incorporar as ideias psicológicas, que vão ganhando cada vez mais espaço. É a partir daqui que vai se estruturando a clínica psicológica.

A clínica, apesar de ser campo de atuação, método e área de produção de conhecimento, tem sido predominantemente compreendida a partir do campo de atuação. Ferreira Neto, ao questionar sobre “qual é o social da clínica”, aponta que o surgimento de termos como “clínica ampliada” não demonstram somente uma mudança no campo lexical, mas também uma mudança de postura e na maneira de compreender o ser humano. O lugar que a psicologia ocupava até este momento como atividade liberal e privada desenvolvida junto às classes média e alta passa a ser questionado, fortalecendo a atuação política da psicologia enquanto área capaz de propor reflexões críticas acerca do homem e do mundo.

A caracterização de uma ação como “social” traz consigo diversas ideias pré-concebidas. O adjetivo vai se substantivando e, hoje, falar em social é falar em uma parcela marginalizada da população, excluída do grupo economicamente ativo e, portanto, perigosa ao equilíbrio da sociedade. Essa parcela da sociedade precisa de ajuda social, ao contrário das “pessoas de bem” que precisam de proteção social por serem detentores de direitos. Todas essas representações acerca do social fizeram com que as políticas sociais fossem, em sua grande maioria, de cunho assistencialista e desconsiderassem a capacidade do sujeito de ser produtor de sua própria história, vendo-os como vítimas e não como pessoas capazes de alterar sua situação social concreta.

Todos esses debates permeiam a clínica ampliada: a psicologização da vida, baseada numa concepção de clínica universalizada e numa concepção de subjetividade a-histórica, a construção histórica de uma clínica que coloca o especialista como detentor de um saber acerca da vida do paciente, essas são questões pertinentes para que se compreenda a saúde pública. Nela, o foco da atuação é na prevenção e promoção da saúde, e não na cura de doenças. Existe uma tensão constante entre esse paradigma e o paradigma vigente de saúde curativa, até porque a atenção básica vai de encontro com a lógica neoliberal e sua tentativa de mercantilização da vida e da saúde.

A clínica ampliada é, então, uma crítica ao modelo médico/hospitalocêntrico/curativo/tecnológico e visa focar a prevenção da saúde e a promoção da qualidade de vida. A crítica não é, porém, ao hospital em si, mas ao fato de se fazer do atendimento hospitalar o modelo de atendimento na saúde como um todo. A criação do hospital se dá num contexto de sociedade disciplinar e visa à institucionalização de práticas sociais. Uma clínica ampliada, portanto, tem como objetivo sair dessa zona de conforto que deixa o profissional de saúde num pedestal e colocá-lo ao lado do sujeito, levando em consideração a autonomia e a dignidade do mesmo. A superação da clínica tradicional é necessária para que se estabeleça uma relação de encontro entre sujeitos, caracterizando uma coprodução de compromissos singulares que nega qualquer elemento a priori para que as experiências de cada um sejam levadas em consideração em todos os procedimentos dentro da saúde pública. A clínica ampliada propõe, enfim, enxergar o homem como um todo, considerando suas dimensões psicológica, biológica, social, histórica e política e dando voz ao sujeito para que ele participe ativamente de seu processo de saúde.

 

 

Roberto Dias

Idealizador e Administrador do Causas Perdidas.