Dilma rima com empatia

217436-9168381-DILMA POSITIVOHoje eu fechei os olhos, querendo ver além. Meu coração estava angustiado, pedindo paz. Eu não sabia exatamente onde aqueles olhos fechados me levariam.

E eles me levaram até a Dilma. Eu pude me conectar a uma mulher combalida, humilhada, destratada na sua essência de ser humano e de mulher, muito além do que qualquer divergência política consiga explicar. A imagem que fiz deste momento foi de uma mulher caída no chão, às lágrimas. Não são as lágrimas do cargo perdido. São os destroços de uma alma esfarelada por um ataque cruel, ferino a muito mais que às suas propostas não cumpridas, às suas contradições ou supostas culpas espalhadas por tantos momentos de condução claudicante dos rumos do país.

Dilma está ferida. Já tinha sido ferida anteriormente, quando a tortura se materializou em seu corpo. Pode parecer que ela suporte tudo por ser guerreira, mas hoje foi o dia de baixar as defesas e entregar-se à dor de ser aniquilada na sua dignidade.

Não nos desviemos da rota; ela é uma mulher que merece viver, e amar como outra qualquer do planeta. Há, ali, naquele corpo que vem se definhando aos nossos olhos, uma dor que não pode ser nomeada, um grito rouco, um choro seco, uma raiva misturada com decepção e desesperança. E isso é a marca de como nós ainda sabemos tratar uma mulher. Não importa o que ela tenha feito ou não feito. Importa a destreza secular que ainda sabemos ter: como aniquilar o feminino, como amputar a esperança, como trazer o ódio para o centro de um encontro que mereceria ser regido pela decência, para dizer o menos. Nós ainda somos os mestres neste feminicídio. Ao derrotarmos a mulher Dilma (e estou indo além da presidenta), estamos necrosando uma parte de nossa alma feminina. Ao transformarmos a sua saída num ritual sádico macarthista, estamos conferindo a nós mesmos o título de executores daquilo de temos de melhor.

O feminino é uma parte de todos, um símbolo, uma forma de delinear o que em nós pode florescer, renascer, gestar, cuidar, semear. O cuidado com o lado feminino da alma de cada um de nós é o insumo para um mundo melhor. É o nosso lado feminino que cuida da natureza, que rega a vida com dinâmicas humanas mais amorosas, que perdoa, que se perdoa, que se abre para a compaixão. É esse lado que está mutilado hoje, em toda a nação. O sofrimento de Dilma nos revela, nos mostra nosso auto-desprezo, nos assombra quando pensamos que ali há partes nossas sendo massacradas.

É hora de abaixarmos as armas. O jogo já teve o seu epílogo. Todos merecem um toque de recolher e de silêncio, que nos remeta à limpeza do ódio que em nós continua brotando aos jorros. Estamos cansados, como Dilma. Hoje todos merecemos chorar.

Hoje eu fechei os olhos e visitei Dilma. Eu lhe ofertei um abraço humano, demorado. Ela pôde chorar, esmurrar meus ombros, lamentar as suas e as nossas misérias, e chorar mais ainda pela falta absoluta de respostas. Depois ela pediu para deitar, e ali eu me vi cobrindo-a de um silêncio reverente. Todos mereciam velar aqueles olhos fechados e recém-lacrimejantes. Cuidar do que fizemos com esta mulher é cuidar de nós, olhar sem reservas para nossa capacidade destrutiva e construirmos uma saída íntima, antes de buscarmos uma coalizão que nos una. Se tivermos entendido o que fizemos com a alma de uma mulher, o lugar abjeto em que ainda insistimos que o feminino ocupe, já terá valido a passagem por estes tempos sombrios.

É por Dilma que eu choro. Mas é também por mim, por você, pelo que andamos fazendo com o melhor que pode habitar em nós.

Alexandre Coimbra Amaral, Psicólogo (CRP 03/4511), terapeuta de casal e família, professor.