Nota sobre declarações do Prefeito Marquinhos Trad


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  1. Em fevereiro de 2019, o prefeito de Campo Grande, Marquinhos Trad (PSD), inaugurou uma unidade da Clínica da Família no município. Na ocasião, o mesmo proferiu a seguinte declaração: “Muitos reclamam do salário. Vocês escolheram trabalhar com isso, vocês quiseram ser servidores, então não devem descontar a raiva na população. Peço muito comprometimento de vocês para realizar um excelente trabalhos aqui. Tem muita gente esperando para ser chamada em concurso para tratar bem a população”. Em outra oportunidade, o prefeito também disse: “Imploro para que o servidor da saúde atenda bem a população. (…) A prefeitura disponibiliza até Psicólogo de graça para atender os servidores com problemas”;
  2. Declarações assim demonstram um certo desconhecimento do ambiente de trabalho das/os servidoras/es da saúde. Quando faz esse tipo de declaração, o prefeito não leva em consideração todas as perdas salariais decorrentes da inflação acumulada durante vários anos sem reajuste para as categorias profissionais que compõem a chamada Referência 14 e todas as dificuldades de negociação coletiva com o executivo nesse período;
  3. A própria Organização Internacional do Trabalho – OIT coloca a remuneração precária no desenvolvimento de carreira como um fator de risco psicossocial no trabalho. Informação que é possível ser confirmada quando comparado o nível de afastamentos por saúde mental nos quadros de servidoras/es municipais;
  4. Outra condição de risco está associada à jornada de trabalho, ao ambiente e equipamentos. Como é sabido por toda a população, nem sempre os equipamentos públicos possuem total suficiência de suprimento e pessoal. Bem como a proposta de redução da jornada de trabalho semanal, defendida por várias categorias, sempre encontra forte resistência da gestão pública;
  5. Para tanto, o executivo dispõe de um programa de atendimento psicológico às/aos servidoras/es, que, devido a grande procura, se encontra com demanda reprimida. O que confirma o adoecimento das/os trabalhadoras/es do serviço público municipal devido a precariedade das condições de trabalho;
  6. Além disso, é preciso dar real importância para a possibilidade de se disponibilizar um serviço de saúde mental também na atenção básica, onde a Psicologia poderia se tornar um suporte na construção de uma melhor relação de trabalhadoras/es com a população atendida, seguindo exemplo do que já acontece em alguns lugares, ainda de forma tímida, com as equipes do NASF – Núcleo de Apoio à Saúde da Família;
  7. É compreensível que a população se revolte quando busca acessar um serviço público a que tem direito e não consegue um atendimento de qualidade. Muitas vezes, em momentos de ânimos exaltados as/os usuários descontam essa angústia de forma enérgica nas/os trabalhadoras/es;
  8. As/os profissionais da saúde já estão cumprindo com o seu compromisso, desde o ingresso na carreira do serviço público por meio de Concurso como rege a Constituição Federal, até o atendimento das/os usuários mesmo sem condições de trabalho e um devido reconhecimento profissional;
  9. E caso realmente existam trabalhadoras/es que não estejam cumprindo sua função, a administração pública dispõe de mecanismos legais para apurar a situação, como a instauração de processos administrativos disciplinares a qual o prefeito poderia lançar mão;
  10. Fazer esse tipo de cobrança publicamente pode colocar a população contra as/os servidoras/es. Em tempos de naturalização de ameaças e discursos autoritários, não podemos nos calar diante da infeliz declaração do excelentíssimo prefeito. Portanto, registramos publicamente o nosso repúdio e aguardamos encarecidamente por uma retratação.  

Campo Grande-MS, 25 de fevereiro de 2019.

SINPSI-MS – Sindicato das/os Psicólogas/os de Mato Grosso do Sul

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