O psicólogo e o compromisso social com a saúde pública

upload-20160916162505sus_3Olá, hoje iremos discutir o lugar da psicologia e as práticas realizadas no campo da assistência pública à saúde e seus desdobramentos em termos do compromisso social atualmente almejado para a categoria. Para tanto, serão tomados como eixos de análise os resultados de duas investigações realizadas com psicólogos que trabalham na rede básica de saúde das cidades de Nata/RN e Teresina/PI.

A VIII Conferencia Nacional de Saúde, ocorrida em 1986, representa um marco na luta pela melhoria do sistema de atenção à saúde no Brasil, na medida em que se constitui como o espaço de negociação e definição do Sistema Único de Saúde – SUS enquanto política nacional. A partir das análises feitas durante a conferência e com o direito conquistado junto à Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 dois anos depois, foi criado o SUS buscando assegurar aos brasileiros um direito junto a Constituição.

O art.196 da Constituição traz o seguinte: “A saúde é um direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”.

Portanto, o SUS, enquanto política de saúde teve sua concepção idealizada a partir da 8ª Conferência, serviu de embasamento para a indicação de reestruturação do sistema sanitário, destacando-se, entre as propostas contidas em seu relatório, segundo Oliveira & Souza (2002), o entendimento amplo do conceito de saúde, sendo esta resultante das condições de vida da população, acesso e posse da terra, moradia, emprego, alimentação, lazer e transporte.

Com esta negociação, são exigidas uma nova mentalidade profissional e organizacional, participação e compromisso na busca da qualidade da saúde. Ou seja, é preciso uma reconstrução da subjetividade dos trabalhadores do campo da saúde, bem como alterar a cultura organizacional hegemônica. O que está acontecendo na saúde é a falta de compromisso do profissional com as instituições das práticas, com o acolhimento e vínculo com os usuários, aspectos considerados fundamentais para a transformação dos modos hegemônicos de fazer saúde e para a construção de um sistema de saúde universal, integral e equânime.

Deparamos-nos com profissionais descontentes, frustrados, apáticos diante da miséria social onde está inserida grande parcela da população brasileira, organizados em torno de interesse imediatos e corporativistas, enfraquecidos em sua capacidade de resistência e luta em prol da cidadania; profissionais impedidos de comprometer-se verdadeiramente com um novo projeto de sociedade e de saúde pública. Esta realidade mostra as conseqüências de profissionais sem Qualidade de Vida dos Trabalhadores e da política de Recursos Humanos.

Só um sujeito situado no seu tempo históricos e em relação aos determinantes culturais políticos e econômicos que condicionam seu modo de estar no mundo poderão transformar desejar e ousar a mudança. Sair do conformismo, reverte à lógica que sustenta o imobilismo, isto é, comprometer-se, ser um ser da práxis. O compromisso social requer um sujeito capaz de construir um saber crítico sobre si mesmo, sobre seu mundo e sobre sua inserção nesse mundo.

Trata-se, pois, de um profissional não escravizado pela técnica pelo saber totalizante dos experts e pelos rituais profissionais. Mas norteado por modelos de explicação ampliados acerca do complexo “promoção-saúde-doença-cuidado”,  formas de intervenção flexíveis de saúde da clientela, e possui efetiva capacidade para lidar com uma realidade desafiadora e complexa, que não se encontra enclausurada nos modelos teóricos aprendidos na academia.

A formação profissional veio direcionando o psicólogo para modelos de atuação bastante limitados para o setor saúde, em parte, pelas dificuldades do profissional em lidar com a demanda da clientela e das instituições de saúde, e até de adaptar-se as dinâmicas condições de perfil profissional exigidas pelo SUS.

As praticas dos psicólogos não estão norteadas no sentido de construção da cidadania espaço onde os sujeitos reconhecem, respeitam e convivem com as diversidades dos outros. Alem disso, são práticas que não rompem com o esquema tradicional do setor nem oferecem resistência ao enfraquecimento das políticas públicas de saúde mais equatilizadoras que se quer concretizar no SUS. O que esta acontecendo é que a psicoterapia termina assumindo um lugar privilegiado dentro do campo da assistência pública à saúde e expressando o que se define por comprometimento com o trabalho.

Os fatores que facilitam o comprometimento dos profissionais no serviço publico: identificação com o trabalho, as características de personalidade e valores ético-morais. Em contrapartida, o baixo salário é um fator que dificulta.

Do ponto de vista do processo de trabalho, entendemos que os psicólogos precisam incorporar uma nova concepção de pratica profissional, associada ao processo de cidadanização, de construção de sujeitos com capacidade de ação e de proposição. A formação acadêmica não tem fornecido elementos para a construção de um profissional-cidadão com possibilidade de intervenção adequada aos espaços territoriais locais, que demandam um alto grau de potência de resposta/ação, de articulação intersetorial, de mobilização de parcerias e de estratégias especificas. É isso mesmo?

Eanes Moreira dos Santos Maciel

Graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, PUC – GO, Pós-graduada em Saúde da Família pela Universidade Federal de Goiás – UFG e Especialista em Terapia de Casais e Família pelo IEP/PUC-GO.