Por que a Psicologia deve parar no 28 de Abril?

Nas últimas semanas, a depressão e o suicídio marcaram forte presença nos noticiários, devido ao lançamento da série Os 13 Porquês da Netflix e ao reaparecimento do “jogo” da Baleia Azul, que, segundo relatos, incentiva os participantes a se matarem ao completarem as tarefas. As discussões mobilizaram muitas pessoas, em especial, da Psicologia, numa campanha de discussão e conscientização sobre esses temas.

Importante como tem sido essa preocupação, há a necessidade de se superar definitivamente a causalidade individualista que a série ou o próprio jogo tentam atribuir a quadros de sofrimento intenso e nos perguntarmos o porquê tem havido, ano após ano, aumento nos índices de transtornos de humor, de ansiedade, afastamento por doenças mentais e casos de suicídio — rompendo com a leitura biomédica e internalista. Temos também, enquanto profissionais da Psicologia, que levar em consideração na nossa atuação, o como condições objetivas da situação do país e do mundo afetam a nós e aqueles/as com quem trabalharemos. Coloco, na sequência, alguns elementos da conjuntura nacional para contribuir com essa reflexão.

No último 17 de Abril completou um ano do impeachment da então presidenta, Dilma Rousseff. O ocorrido fragilizou ainda mais a democracia brasileira e, de lá pra cá, contrário ao que se dizia por aí, o que estava ruim, ficou pior. O crime que derrubou Dilma (as tais pedaladas) deixou de ser crime logo em seguida; Cunha, após conseguir retirar a presidenta, foi preso, mas continua mandando e desmandando; o juiz Moro foi alçado a herói, mesmo desrespeitando princípios básicos do Direito e parecendo ter uma obsessão pelos holofotes. Além disso, mês após mês, Temer e seu governo — aliados a um judiciário e um legislativo, no mínimo, duvidosos — não têm medido esforço algum para levar o Brasil a um patamar de campo de exploração e subemprego, novamente.

O alinhamento das esferas federal, estaduais e municipais na maior parte do país é surpreendente e nunca ficaram tão evidente s os interesses dos setores que, de fato, comandam o país (os banqueiros, os donos de empreiteiras, do agronegócio ou, sendo mais objetivo, a burguesia nacional) como nesse último ano: quem vai pagar a crise criada por eles mesmos são os/as trabalhadores/as, custe o que custar. Dentro desse grupo, como já se sabe historicamente, o preço sempre é mais alto para mulheres, LGBTs, negros/as e povos originários.

Na Educação, temos a “Reforma” do Ensino Médio, a cruzada contra a diversidade de gênero e religiosa, a escola “sem partido”, a retirada de bolsas de pesquisa e as tentativas constantes de privatização do ensino público. Na saúde, temos o retorno contundente da lógica manicomial, fruto das alianças com os setores fundamentalistas das igrejas evangélica e católica e suas comunidades terapêuticas, além de uma intensificação do desmantelamento do SUS, privilegiando — mais uma vez — os interesses privados. No trabalho, temos as terceirizações, a “reforma da previdência”, a destruição da CLT e o favorecimento perverso daqueles que se dizem prejudicados por “gastarem demais com seus/suas funcionários/as”. Some a isso as delações escandalosas numa frequência quase ininterrupta, comprometendo mais de 60% da base atual do governo e uma parcela significativa do ex-governo e o cenário está posto.

Ainda que não se tenha confiança alguma no governo (e, atualmente, na política institucional como um todo), o indivíduo que vem sentindo na pele a crise, não vê saída senão comprar o discurso temeroso e mergulhar na busca por emprego. Como a oferta tem sido cada vez mais escassa, perder aposentadoria, perder vínculo via CLT, trabalhar mais e receber menos e uma série de outras obscenidades começam a se tornar “aceitáveis”, afinal, qualquer coisa é melhor que ficar desempregado/a. O lazer torna-se dispensável e até a inclusão via consumo passa a ser secundária. O desmonte da Educação tem sido observado do ensino fundamental ao superior, formatando (ao invés de formar) a futura mão-de-obra — cada vez mais barata e precarizada — disfarçando-se num discurso de “melhor preparo para o mercado de trabalho”. A saúde, por sua vez, em crescente elitização, “seleciona” os que conseguirão sobreviver a tanta violência.

No entanto, ainda que difícil, não estamos sem saídas, por mais que tentem nos empurrar goela abaixo a ideia de que não há alternativas e de que é necessário aprovar esses ajustes de qualquer jeito (para garantir o lucro deles às nossas custas). Mas se tem algo que as Jornadas de Junho, a Primavera Feminista, as Ocupações Secundaristas e de Universidades e, mais recentemente, o 8 de Março e o 15 de Março, provaram é que quando o povo se levanta, os barões do poder tremem. Temer já recuou no texto original da previdência e a reforma trabalhista está sendo movida a toque de caixa para tentar aprovar tal atrocidade antes das paralisações dessa Sexta-feira, 28 de Abril, que são vistas com preocupação pelo governo ilegítimo e golpista.

Não há como hesitar diante um cenário desses. Todos e todas devem ocupar as ruas no dia 28. Não trabalhar. Não comprar. Não vender. E resistir. Não há como se esconder atrás de supostas neutralidades ou discursos descrentes.

Isso é ainda mais verdadeiro para meus colegas e minhas colegas da Psicologia. Por mais vaga que seja a definição de saúde como “bem-estar biopsicossocial”, até ela está completamente ameaçada pela agenda que está sendo implementada no Brasil (e no mundo, também). A violência diária que tem sido imposta a todas e todos não tem como ser “descolada” do nosso trabalho na clínica, na escola, nas organizações, na comunidade, etc., e das demandas que recebemos nesses espaços. A maneira como as pessoas se relacionam com elas mesmas e umas com as outras é profundamente afetada pela lógica capitalista e tem sido intensamente fragilizada pelo ataque diário de grupelhos criminosos que não tem interesse algum pelo bem-estar humano.

A defesa de nossos interesses em ajudar e promover qualidade de vida e bem-estar para as pessoas passa pela luta contra o que está posto nesse momento na conjuntura nacional e mundial. A inércia não é uma opção. Não podemos permitir que tanto medo continue sendo espalhado e nos fecharmos na nossa atuação como se nosso objeto de trabalho não fosse fruto direto disto. O potencial transformador da Psicologia deve passar, obrigatoriamente, pela organização da indignação e pela reivindicação de uma sociedade mais justa e coletiva.

Nesse momento, isso implica em estar nas ruas, exigindo a derrubada dessas contrarreformas, eleições diretas e a queda deste governo que não nos representa. Em Curitiba, as manifestações do 28 de Abril acontecerão durante a manhã e à tarde, com concentração a partir das 09h, na Praça Nsa. Sra. do Salete (ao lado da Prefeitura), rumando para FIEP na sequência, passando pela Praça Tiradentes e encerrando, próximo às 14h, na Boca Maldita.

Organize seus/suas colegas, amigos/as e familiares e lute pelo seu futuro!

#ForaTemer

Luccas Cechetto

Psicólogo behaviorista e militante dos Direitos Humanos em Curitiba-PR