Um congresso do povo

Após junho de 2013 várias outras manifestações de rua reuniram centenas de milhares de pessoas, mas já não tinham as mesmas características. A polarização das posições entre conservadores e progressistas, sem entrar na fragilidade desta classificação, marcou as eleições de 2014 e todo ano de 2015.

A ocupação das ruas foi o ingrediente que faltava para uma mudança na hegemonia política no Brasil. Juntamente com as empresas da mídia, e outras mais (vide o empenho da FIESP), e parcelas da burocracia estatal, a maioria do Poder Legislativo pôde desestabilizar o governo e finalmente destituir a então presidenta Dilma .

A nova hegemonia política reuniu os blocos conservadores que compunham o governo petista com os derrotados nas eleições de 2014, dando um golpe no povo, ao fazer valer as medidas reprovadas pelo voto popular.

Por isso, hoje, vemos o congelamento do orçamento das políticas públicas por 20 anos, os direitos trabalhistas sendo escaldados, a escalada das privatizações, o aumento do desemprego, da pobreza e consequentemente da concentração de renda; ameaças a direitos e garantias individuais  (como a prisão de Lula sem provas), a continuidade e ampliação do extermínio da população negra periférica, da violência contra as mulheres e do assassinato de defensores de direitos humanos (cujo caso Marielle e Anderson é o exemplo mais recente); o desrespeito e desconsideração às demandas indígenas (a FUNAI já vai para seu terceiro presidente em dois anos); a destruição dos (insipientes) processos de democratização do estado (conferências de políticas públicas etc) e retrocessos na política internacional soberana, marcas dos governos petistas.

Ou seja, 5 anos depois a situação brasileira é pior do que em 2013, mas o mesmo marasmo que marcou o país em 2011 e 2012 predomina entre as classes populares. É o povo, que vive de seu próprio trabalho, o mais prejudicado pela crise que vivemos e pela perspectiva de que não sairemos dela tão cedo.

A situação requer mobilizações sociais, retomada de um processo de atos políticos massivos, de baixo para cima. E isso é ação de médio a longo prazo, pois demanda mudanças políticas de ordem estratégica e cultural.

A união faz a força, mas sem organização a força pode acabar como acabou de 2013 pra cá. Transformando-se, de um desejo coletivo de mudança, em uma disputa superficial de dois projetos antagônicos.

Neste período as mobilizações das organizações populares, foram as responsáveis por barrar a reforma da previdência e a privatização da Eletrobrás, além de outros retrocessos. A situação está menos pior devido a estes movimentos de resistência, aos #ForaTemer e #GloboGolpista que se espalharam pelo Brasil, e neste cenário é importantíssima a atuação das Frente Brasil Popular e Frente Povo sem Medo.

Há um certo consenso, portanto, que somente a ampliação das mobilizações poderá reverter este movimento de declínio civilizacional que vivemos ou mesmo amenizá-lo. E que esta ampliação depende de fortalecermos uma prática essencial para a disputa de hegemonia na sociedade, o trabalho de base. Aquele que se sustenta na educação, na organização e na luta, que se utiliza da comunicação democrática e da educação popular como metodologias, que tem na cultura popular sua expressão mais formidável. Aquele que requer uma postura reflexiva sobre a prática, que incentiva a autocrítica, e que leva tempo para produzir resultados, e por isso já foi chamado de “trabalho de formiguinha”. Aquele que deve se reinventar para dar conta das novidades em tempos de relações e redes sociais virtuais, fluidas, circulares, efêmeras, líquidas.

Frente a este cenário as mais de 80 organizações componentes da Frente Brasil Popular estão propondo um processo de fortalecimento do trabalho de base sistemático, o Congresso do Povo. Trata-se de um processo que levará tempo, e que, justamente por ser de médio prazo, precisa ser iniciado o mais rápido possível. Também será um experimento de abertura de horizontes para novos diálogos, com novos sujeitos, com outras formas de enxergar a realidade, desde que a perspectiva seja a mudança da sociedade de baixo para cima, em busca de igualdade social e de uma democracia plena.

Para superar a dicotomia falsa na qual nos metemos, para envolver a classe trabalhadora de verdade, para que não tenhamos apenas outro espasmo de mobilizações massivas sem resultados concretos, toda força ao Congresso do Povo!

 

1 Sem mencionar a contribuição que o próprio governo Dilma deu à sua queda ao optar por implementar um programa de governo que apostava na austeridade para vencer a crise.

2 Como aquela representada pelas declarações do General Comandante do Exército, Eduardo Vilas Bôas, às vésperas do julgamento do HC de Lula.

 

 

Educador Popular